Eu tenho na minha cabeça uma memória da minha mãe me pedindo para lavar um liquidificador que eu havia usado para fazer minha vitamina de abacate. Eu devia ter uns seis anos e lembro de ter chorado, porque tinha medo da hélice afiada e precisava tirar toda a sujeira verde da fruta.
Meu bracinho curto e fino era engolido pelo copo da máquina, mas eu consegui. Senti orgulho ao terminar e percebi que, afinal, eu já não era assim tão pequena, porque lavar liquidificador era coisa de gente grande. Fico pensando: o que aconteceu com essa coragem que as mães injetavam nas crianças? Acho que as mães de antigamente não paravam para pensar se aquilo seria traumático, se traria algum dano emocional futuro, se causaria frustração ou estresse. Elas não tinham tanta pena dos filhos. Hoje, porém, muitas mães sofrem junto com as crianças e, na tentativa de protegê-las, acabam evitando que elas vivenciem situações que poderiam ajudá-las a desenvolver autonomia e confiança.
Hoje, se a criança chora para cortar o cabelo, não corta. Se chora para descer no escorregador, então não precisa descer. Se não quer entrar na escola porque está chorando, muitas vezes não entra, porque os pais não têm coragem de vê-la “sofrer”. No meu tempo, eram as avós que, muitas vezes, faziam esse papel de proteção excessiva; hoje, parece que essa postura também passou a fazer parte da rotina dos pais. Falo tudo isso porque estamos vendo na escola reflexos e impactos preocupantes dessa superproteção sobre as crianças.
Algumas vezes nós, professoras, temos ido embora no fim da tarde mais preocupadas do que chegamos, especialmente diante das respostas que as crianças têm dado aos desafios e às metas traçados para elas na Educação Infantil. Preocupamo-nos com o que as crianças têm (ou não têm conseguido) manifestado nas rodas de conversa, nas brincadeiras, na fila, na hora do lanche; com a forma como têm resolvido seus pequenos conflitos do dia a dia e com a maneira como têm exercido sua autonomia longe das famílias.
Nosso trabalho na escola é norteado pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que orienta as ações docentes. Não estamos aqui apenas para brincar de escolinha, estamos aqui para promover aprendizagens, desenvolver habilidades e contribuir para a formação da próxima geração e isso é coisa séria! A BNCC organiza o trabalho da Educação Infantil em cinco campos de experiências, tendo as interações e as brincadeiras como eixos estruturantes. Ao mesmo tempo, propõe o desenvolvimento de diferentes noções, competências e habilidades adequadas a cada faixa etária. Entre esses objetivos estão o desenvolvimento da coordenação motora, da comunicação oral, das regras básicas de convivência social, da capacidade de demonstrar interesse e curiosidade, do respeito, da empatia e de tantas outras aprendizagens importantes para a vida em sociedade.
Ao final de cada semestre, fazemos um feedback aos pais, contando como foi o período e quais objetivos foram desenvolvidos. Alguns a criança já alcançou; outros ainda estão em processo de aquisição. Mas o que os pais têm feito com essas informações? Muitos objetivos acabam não sendo alcançados porque crianças de quatro e cinco anos, por exemplo, muitas vezes ainda não conseguem vestir o próprio casaco, segurar o pãozinho para comer ou puxar o zíper da mochila para retirar um brinquedo de dentro.
A escola ensina muitas coisas no ambiente formal de ensino, inclusive a vestir o casaco, organizar seus pertences e desenvolver hábitos de autonomia, entretanto, poderíamos estar concentrando nossos esforços em aprendizagens ainda mais específicas se algumas dessas habilidades já viessem sendo estimuladas em casa. Crianças de quatro e cinco anos ainda apresentam dificuldade para responder perguntas simples feitas pela professora, como: “O que você fez no fim de semana?” Surge um pensamento: será que os pais não estão tendo tempo para conversar com seus filhos? Será que falta tempo para ouvir suas histórias, fazer perguntas e permitir que elas construam suas próprias respostas? Ou será que, na tentativa de facilitar a vida da criança, os adultos estão fazendo tudo por ela e não estão permitindo que ela descubra o que já é capaz de fazer?
A educação passou por grandes transformações nas últimas décadas, deixamos para trás modelos excessivamente autoritários e passamos a dar mais atenção às emoções, aos sentimentos e à forma como a autoridade dos adultos pode impactar a formação das crianças, porém esta autoridade não pode deixar de existir, e algum momento os pais confundiram acolhimento com permissividade e ausência de limites. O resultado não foi bom! Os pais precisam escolher, decidir porque criança ainda não possui repertório emocional e cognitivo suficiente para decidir sozinha se vai ou não participar de uma apresentação na escola, se aquilo que está sentindo realmente é medo ou preguiça. Ela também não pode decidir sozinha todas as relações que estabelecerá. Precisa aprender que, mesmo quando não gosta de alguém, deve respeitá-lo. Precisa aprender a esperar, compartilhar, ouvir, negociar, lidar com frustrações e compreender que nem tudo acontecerá exatamente como deseja, que as pessoas não vão mudar de lugar pra ela sentar aonde gosta.
É importante destacar, mais uma vez, que a autoridade é necessária na educação das crianças. Autoridade não significa autoritarismo, violência ou falta de diálogo. Significa ter responsabilidade para conduzir, estabelecer limites, ensinar, proteger e ajudar a criança a caminhar na direção da autonomia. A criança precisa de adultos que sejam a luz do caminho, e não de adultos que retirem todos os obstáculos antes que ela tenha a oportunidade de tentar enfrentá-los. Enquanto a escola trabalha a escolarização e as aprendizagens sistematizadas, a família se ocupa com a formação de valores. Quando essa parceria não funciona bem, todos sofrem: professoras sobrecarregadas, crianças desmotivadas ou com dificuldades de aprendizagem, famílias frustradas e em busca de laudos.
No fim das contas, eu sofri para lavar um liquidificador mesmo com medo da hélice mas não saí daquela experiência traumatizada por ter enfrentado aquela dificuldade. Quem sabe seja exatamente disso que nossas crianças estejam precisando: não de menos acolhimento, mas de mais oportunidades para tentar, errar, insistir, aprender e descobrir, pouco a pouco, que são capazes.
KÁTIA GISELE COSTA
Coordenadora Pedagógica Colégio SEPAM Ponta Grossa